Política

Mamadou Ba. “O meu anticolonialismo vem-me das vísceras”

Victor Gill
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Demissão do Bloco

No final de novembro de 2019 Mamadou consumou a sua rutura com o Bloco de Esquerda anunciando, em comunicado, que se demitia do partido. “A minha desvinculação resulta de uma profunda divergência, pois o que renego não é o projeto que deu origem ao Bloco, mas o que o partido se tornou ao longo do tempo”, escreveu nesse comunicado. A forma como o partido o deixou isolado no caso da violência policial no Bairro da Jamaica não foi alheia à decisão. A direção bloquista pôs rapidamente a correr a ideia de que Mamadou se demitira porque fora excluído da lista de candidatos a deputados, preterido por Beatriz Gomes Dias, presidente da Associação de Afrodescendentes

Quando começou a luta antirracista de Mamadou Ba? Talvez, na verdade, muito antes de nascer. Foi o próprio quem o mostrou, há dias, numa longa nota no Facebook onde agradeceu as mensagens de solidariedade que recebeu nos últimos dias – uma “vaga de amor contra a torrente de ódio” dos 15 mil que assinaram uma petição pedindo a sua extradição para o país onde nasceu há 47 anos, o Senegal.

A pretensão é absurda porque Mamadou Ba tem nacionalidade portuguesa. Mas foi a resposta ao facto de o dirigente do SOS Racismo não ter tido papas na língua quando o CDS-PP propôs que a morte de Marcelino da Mata (negro português nascido na Guiné que combateu na Guerra Colonial o PAIGC integrado no Exército Português) fosse assinalada com um dia de luto nacional.

Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nem tributo nenhum.”

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Subscrever Habituado a viver do cheiro da pólvora e avesso a qualquer tipo de prudência argumentativa, Mamadou disparou: ” A proposta de luto nacional proposto pelo CDS é uma afronta a todas e todos nós que herdamos dos horrores do colonialismo. Qualquer tributo que se faz ao torcionário do regime colonial é um insulto à memória daquelas e daqueles que lutaram pela liberdade, até a última gota do seu sangue .” E para que não restasse mesmo dúvida nenhuma: “Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nem tributo nenhum.”

Quinta-feira o ativista – que o DN tentou, em vão, contactar – agradeceu as manifestações de solidariedade com um poema de Ana Hatherly.

O que é preciso é gente

gente com dente

gente que tenha dente

que mostre o dente

Gente que não seja decente

nem docente

nem docemente

nem delicodocemente

Gente com mente

com sã mente

que sinta que não mente

que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente

que fira de unha e dente

e mostre o dente potente

ao prepotente

Mas também disse que “ganhou o dia” quando, na sequência da polémica desencadeada pelas suas palavras sobre Marcelino da Mata, revelou que recebeu um telefonema de solidariedade de “um dos mais ilustres lutadores anticoloniais e dirigentes do PAIGC, o ex-presidente da República de Cabo Verde Pedro Pires.

E mais ainda: voltou a recordar que o seu combate antirracista e anticolonialista não lhe vem do nada. Tem raízes profundas suas próprias memórias familiares.

Não foi só o pai, que foi correio do PAIGC e que “pedalava mais de 400 km entre a Guiné-Bissau e a Gâmbia, atravessando o Senegal para ir buscar mantimentos para os combatentes do PAIGC.

Os africanos na II Guerra Foi também a de um tio-avô, Mamadou Hady Ba, que integrou o contingente oriundo do Senegal (então uma colónia francesa) que, comandando por oficiais afetos a De Gaulle, combateu na Europa (França, Itália e as tropas nazis.

“Acompanho este poema [de Ana Hatherly] com a foto do meu tio-avô, Mamadou Hady Ba, a quem os nazis deram a alcunha de “terrorista negro” e que lutou e deu a vida contra o nazismo” , escreveu. Explicando porque fazia questão de recordar este património familiar: ” Invoco ambos como compromisso inquebrantável contra o colonialismo, o fascismo e o racismo. Invoco-os também para que os defensores da manutenção de uma ordem memorial colonial saibam que o meu anticolonialismo vem-me das vísceras. “

Há portanto pontos de contacto entre Marcelino e o tio-avô de Mamadou: integraram contingentes étnicos ao serviço da respetiva potência colonial. Só que Mamadou Hady Ba esteve, na II Guerra, ao serviço de um combate contra o racismo (nazi, no caso), enquanto Marcelino da Mata serviu a sua potência colonialista para combater os seus próprios conterrâneos e a sua pretensão à independência. Marcelino dizia que queria “a Guiné para os guinéus”. Ou seja: argumentava que uma Guiné independente não seria na verdade independente, antes um satélite soviético.

“Não tenho alternativa” Os historiadores dizem, aliás, que o combate das tropas étnicas ao serviço dos Aliados na II Guerra forjou em muitos dos seus soldados a certeza de que, afinal, o que uma morte em combate mostra é que todos os homens, brancos ou negros, são iguais. A consciencialização política por terem estado ao serviço de um combate ao fascismo serviria a muitos, depois, para integrarem os movimentos de libertação dos territórios coloniais.

Mamadou Ba nasceu no Senegal em 1974 e já contou que o seu interesse pela língua portuguesa vem do convívio com familiares que tinha em Bissau. Licenciou-se em Dakar em Língua e Cultura Portuguesa e veio para Portugal em 1997 , percorrendo a via-sacra habitual dos imigrantes africanos. Chegou com uma bolsa do Instituto Camões mas teve de trabalhar nas obras. Um amigo morreu-lhe numas obras do Teatro Aberto. Em 2017 explicava ao DN a razão de ser desta sua luta de vida: “Não tenho alternativa.”

Três polémicas “Bosta da bófia”

Em janeiro de 2019, o país noticioso foi agitado por um caso de violência policial (da PSP, no caso) no Bairro da Jamaica, no Seixal, o bairro mais degradado do distrito de Setúbal. A deputada do BE Joana Mortágua colocou online um vídeo com dando conta de agressões de agentes da PSP a negros no bairro e Mamadou Ba reagiu-lhe falando, no Facebook, na “bosta da bófia” e insurgindo-se contra “sermões idiotas de pseudo-radicais iluminados”. Mamadou era na altura assessor do BE no Parlamento mas o partido, depois, deixou-o isolado, sublinhando que a PSP não podia ser alvo de “generalizações”.

Demissão do Bloco

No final de novembro de 2019 Mamadou consumou a sua rutura com o Bloco de Esquerda anunciando, em comunicado, que se demitia do partido. “A minha desvinculação resulta de uma profunda divergência, pois o que renego não é o projeto que deu origem ao Bloco, mas o que o partido se tornou ao longo do tempo”, escreveu nesse comunicado. A forma como o partido o deixou isolado no caso da violência policial no Bairro da Jamaica não foi alheia à decisão. A direção bloquista pôs rapidamente a correr a ideia de que Mamadou se demitira porque fora excluído da lista de candidatos a deputados, preterido por Beatriz Gomes Dias, presidente da Associação de Afrodescendentes.

Marcelino da Mata

Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nem tributo nenhum.” Sem meias palavras, Mamadou Ba reagiu assim à proposta que o CDS fez para que a morte de Marcelino da Mata fosse assinalada pelo Estado como um dia de luto nacional. Marcelino da Mata, negro nascido na Guiné, serviu no Exército colonial português, tornando-se no mais condecorado militar português. “Qualquer tributo que se faz ao torcionário do regime colonial é um insulto à memória daquelas e daqueles que lutaram pela liberdade, até a última gota do seu sangue”, escreveu Mamadou. 15 mil pessoas assinaram uma petição pedindo a sua extradição para o país onde nasceu, o Senegal.