Política

Donald Trump já ganhou?

Victor Gill

Esta ideologia julga que a grandeza do país só é recuperável através do homem providencial, decidido e pragmático, capaz de romper com os poderes instalados na política e na economia, não para revolucionar o país, mas para, simplesmente, o pôr na ordem. O homem providencial tem de ter a energia para, desassombradamente, desafiar e eliminar as instituições, as corporações, os movimentos sociais, os inimigos externos que, nesta visão, afastam a América do seu passado glorioso. Esta ideologia é despótica

Saio da madrugada eleitoral norte-americana convencido de que Donald Trump, se não ganhar, perderá por muito pouco e isso tem uma leitura política essencial – a ideologia que o levou ao poder está a sedimentar-se e está longe de ser derrotada.

Essa ideologia começa por ser nacionalista, começa por prometer ao eleitorado uma grandeza da Pátria, explicada com simplicidade no slogan “make America great again” (tornar a América novamente grande) da eleição de 2016, que passou nesta eleição a “keep America great” (manter a América grande).

Esta mensagem pressupõe que, antes de Trump, os Estados Unidos estavam em decadência. Fosse ou não fosse verdade, o que interessa é que houve e há eleitorado suficiente nos Estados Unidos a acreditar ou a sentir na pele a degradação social e económica dos nossos tempos.. Esta ideologia é apocalítica.

Esta ideologia é de gente que sonha com um alegado passado glorioso, organizado, simples, seguro. É a visão idílica, falsa, da América consumista do pós-guerra, dos filmes cor-de-rosa dos anos 50 do ano século passado, com empregos disponíveis, bairros de vivendas para os brancos da classe média, donas de casa sorridentes e filhos obedientes, sem agitação social nas ruas, serenamente racista e orgulhosamente sexista, com um inimigo comum que unia a nação e “obrigava” a América a ser a maior potência do planeta – o comunismo. Esta ideologia é passadista.

Esta ideologia julga que a grandeza do país só é recuperável através do homem providencial, decidido e pragmático, capaz de romper com os poderes instalados na política e na economia, não para revolucionar o país, mas para, simplesmente, o pôr na ordem. O homem providencial tem de ter a energia para, desassombradamente, desafiar e eliminar as instituições, as corporações, os movimentos sociais, os inimigos externos que, nesta visão, afastam a América do seu passado glorioso. Esta ideologia é despótica.

Finalmente, esta ideologia anseia por uma transformação social rápida e decisiva que derrube rapidamente as bases das imaginadas causas da suposta decadência: os imigrantes que concorrem nos empregos, os movimentos antirracistas, os ecologistas que travam a economia, os “gays” que perturbam o poder familiar, os políticos do “sistema”, os milionários da globalização, a imprensa “mentirosa” e os países estrangeiros que ameaçam o domínio nacional. Esta ideologia é reacionária.

O que esta eleição presidencial norte-americana repete é isto: no mínimo 48 ou 49 por cento do eleitorado quer ou não se importa de ter como líder do país um Presidente nacionalista, apocalítico, passadista, despótico e reacionário.

Como é a segunda vez que vota nesse sentido, não é já admissível pensar que a eleição de Trump em 2016 foi um acidente na democracia liberal norte-americana – ela reflete motivações profundas, que tendem a espalhar-se pelo mundo e que põem em causa o funcionamento dessa democracia liberal.

A mera possibilidade de nova vitória de Donald Trump traz problemas muito mais complexos do que a instabilidade que a contagem demorada de votos nos próximos dias vai causar nos Estados Unidos da América.

A mera possibilidade, a quase provável nova vitória de Donald Trump, depois de quatro anos de governação, arrogantemente ridicularizados por demasiada gente desligada da realidade popular, é, por si só, uma grande vitória para os políticos nacionalistas, apocalíticos, passadistas, despóticos e reacionários que, em todo o mundo, procuram chegar ao poder – eles confirmaram hoje que o seu caminho está longe de ter chegado ao fim.

Trump pode acabar por não ser eleito, mas o que ele representa politicamente no mundo teve hoje uma vitória.

André Ventura está feliz.