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Viagem pelo subterr�neo da Catedral

Victor Gill
Viagem pelo subterr�neo da Catedral

DESDE 1927 A maior plataforma multimídia do Interior 25�C 14�C EDI�óO IMPRESSA Campinas, curiosidade Viagem pelo subterr�neo da Catedral Os homens mais importantes do clero campineiro descansam numa área abaixo do altar da igreja Publicado 18/10/2020 – 10h29 – Atualizado 18/10/2020 – 10h29

Por Francisco Lima Neto

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Leandro Ferreira/AAN

A cripta da Catedral Metropolitana de Campinas ficou pronta no dia 1� de fevereiro de 1923: erguida em mármore carrara, vindo da Itália

A cripta da Catedral Metropolitana de Campinas é um espaço no subterrâneo onde descansam os homens mais importantes do clero campineiro. O local sagrado é um espaço muito bonito, bem projetado, que conta com materiais importados em sua composição. Mas do plano até a execução, o caminho não foi fácil e precisou da perseverança de Dom Francisco de Campos Barreto, idealizador do ambiente, para que ele realmente existisse. Dom Barreto não tinha muitos recursos à sua disposição para a construção da cripta, mas tinha muita fé, resiliência e convicção da sua visão. Os barões e outros influentes da época eram contrários àquela ideia. Segundo eles, a construção da cripta na igreja descaracterizaria o projeto original da catedral. Contudo, além de ser um projeto pessoal do bispo, um verdadeiro sonho, uma cripta era algo quase que obrigatório dentro de qualquer catedral ao redor do mundo. Após muita luta, manifestações contrárias, comentários, a cripta ficou pronta em 1º de fevereiro de 1923. Foi erguida em mármore carrara, vindo diretamente da Itália. Tem três metros de largura, por oito de comprimento e três de altura. Muitos fiéis ou visitantes, mesmo indo frequentemente à Catedral, não sabem da existência da cripta ou a sua localização. Sua entrada fica no altar, bem atrás da mesa de comunhão. Ali tem uma escada que leva direto ao subsolo. Ela passa incólume, quando fechada. Lá dentro, ao lado esquerdo, estão nove gavetas ou carneiras, como também são chamadas, para o descanso eterno dos bispos. As tampas delas são peças inteiras de mármore, com puxadores de metal. As peças de mármore têm gravado o nome de quem ali está sepultado e outras informações a seu respeito. Os restos mortais do criador da cripta, Dom Francisco de Campos Barreto, estão na Casa de Nossa Senhora. Na carneira da cripta está a urna utilizada para transportar, na época, o corpo dele até a Casa de Nossa Senhora, onde recebe homenagem das Irmãs Missionárias, congregação da qual é fundador. Estão sepultados no local: D. João Batista Correa Nery (1863-1920), D. Joaquim Mamede da Silva Leite (1876-1947), D. Joaquim José Vieira (1836-1917), D. Paulo de Tarso Campos (1895-1958) e D. Antônio Maria Alves de Siqueira (1906-1993). Últimos dias Dom Francisco de Campos Barreto morreu às 22h52 do dia 22 de agosto de 1941, aos 64 anos. No dia 14, daquele mês, chegou a Belo Horizonte para a inauguração da cidade Ozanan, uma obra de assistência aos pobres dirigida pelas Missionárias de Jesus Crucificado. Mas depois encurtou a viagem porque não se sentia bem. Chegou a Campinas no dia 20, com pneumonia dupla e uremia. Ficou em seus aposentos no Palácio Episcopal, sob os cuidados dos médicos Manoel Dias, Azael Lobo, Armando da Rocha Brito e de seu sobrinho, vindo de São Paulo, Doutor Flávio Magalhães de Campos. Mesmo com todos os recursos empregados, não resistiu. Foi sepultado no dia 23 de agosto, na Cripta da Catedral Metropolitana de Campinas. Por ocasião dos 25 anos de seu falecimento, no dia 22 de agosto de 1966, e fazendo cumprir o seu Testamento, os restos mortais foram trasladados para o Mausoléu da Casa Generalícia das Missionárias de Jesus Crucificado, hoje com o nome de Casa de Nossa Senhora. Idealizador da cripta, Dom Barreto desde cedo mostrou vocação para a vida religiosa Idealizador da cripta, Dom Francisco de Campos Barreto nasceu no Arraial dos Souzas, em Campinas, no dia 28 de março de 1877. Ele é filho de Joaquim de Campos Barreto e de Gertrudes Leopoldina de Morais, família tradicional da cidade. Foi matriculado ainda muito novo na escola mantida pela sociedade Luiz de Camões, onde fez seus primeiros estudos. Nesse tempo começava o vicariato do então padre João Nery na Matriz de Santa Cruz, onde Francisco de Campos Barreto frequentava a Escola de Coroinhas e onde foi acólito — assistente que ajuda o celebrante em um serviço religioso. Sua vocação para a vida religiosa aflorou muito cedo. Em setembro de 1890 foi matriculado no Seminário Episcopal de São Paulo. Durante sua estada no seminário, foi secretário de Dom Joaquim Arcoverde, o primeiro cardeal brasileiro, bispo de São Paulo, e foi, também, mestre de cerimônias da Catedral. Foi ordenado sacerdote no dia 22 de dezembro de 1900, na Catedral de São Paulo, por Dom Antônio Cândido de Alvarenga. De maio de 1903 a dezembro de 1904 foi pároco no Arraial dos Souzas. Em 1904 foi transferido para a Matriz de Santa Cruz, sendo o seu 5º Vigário. Fundou a União de Santo Agostinho, a Associação das Mães Christans e a Liga do Menino Jesus. Criou também a Ordem Terceira do Carmo e fundou o Colégio do Sagrado Coração. Trabalhou pela criação do bispado de Campinas. No dia 9 de março de 1908, o Papa Pio X lhe conferiu o título de Monsenhor. Instalada a Diocese de Campinas, foi nomeado por Dom Nery como Cônego Arcipreste (chefe dos padres de um clero). Em 2 de maio de 1911, foi nomeado para primeiro Bispo da nova Diocese de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Dom Barreto assumiu a Diocese de Pelotas no dia 21 de outubro de 1911. Na nova Diocese, Dom Barreto teve de criar tudo, vencendo inúmeras dificuldades, algumas criadas pelo próprio clero local, ligado à Maçonaria. Entre outras coisas, disseminou e fiscalizou por todas as paróquias o ensino do catecismo. Seu trabalho foi árduo e intensificou a vida religiosa daquela região. Em 30 de junho de 1920, foi transferido para a Diocese de Campinas, onde tomou posse em 14 de novembro daquele mesmo ano. Reorganizou a imprensa Diocesana, com a fundação da “A Tribuna” que chegou, no ano de sua morte, a ter 5.000 assinaturas. Fundou o “Amigo do Clero”, uma publicação periódica de cultura eclesiástica. Organizou e regulamentou todos os departamentos da Cúria Diocesana, entre muitas outras providências. No seu governo, foi construído o Palácio Episcopal, o Seminário Diocesano e o novo Seminário Diocesano (onde é hoje o Colégio Dom Barreto), entre muitos outros feitos marcantes. Em 1928, cumprindo seu dever, protestou publicamente contra o procedimento do vice-presidente da República, Fernando Melo Viana, que se casou no civil em Campinas com Dona Clotilde de Souza Elijalde, uma mulher já casada na Igreja. O fato provocou, por parte de amigos do vice-presidente, muitos ataques e injúrias contra Dom Barreto. Um vereador afirmou que a tal mulher era proprietária da Catedral, o que levou Dom Barreto aos tribunais, vencendo o processo. Durante o período da Revolução em 1930, ele foi convidado a celebrar Missa e dar comunhão aos reservistas de Campinas que iam para a luta. Seus inimigos aproveitaram a ocasião para afirmar que ele induzia os jovens a partir. Por conta dessas acusações, um bando de homens exaltados assaltaram, depredaram e saquearam seu palácio, na noite de 24 para 25 de outubro. Avisado antes por seu amigo, o doutor João Penido Burnier, sobre o que iria ocorrer, passou a noite no Instituto Penido Burnier. Na manhã seguinte, foi embora para São Paulo, onde ficou até o dia 5 de novembro. Quando retornou, perdoou os agressores e retomou seu trabalho.