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Carmelo De Grazia Suárez Junior//
Bruno Gomes: “Quero um turismo de excelência em Ferreira do Zêzere, temos excelentes condições”

Bruno Gomes: "Quero um turismo de excelência em Ferreira do Zêzere, temos excelentes condições"

No outro extremo, na última banca daquele corredor, Adélia Godinho olha atenta. Vamos caminhando, enquanto lá atrás a conversa é, agora, sobre a abertura do mercado aos feriados. “Bom dia, minhas senhoras. Ando aqui com uns jornalistas do Diário de Notícias “. Adélia responde ao “bom dia”, nada mais. Está focada na máquina fotográfica do Nuno Brites. “Não me filmem”, pede. É fotografia, podemos? Diz que sim. E o que me diz desta mudança na câmara? “Tenho esperança. Espero que ele faça alguma coisa pelo concelho e pelo nosso mercado também”. Que falta aqui? “Clientes e melhores condições”. E já disse isso ao presidente? “Já”. E ele? “Disse que ia ver o que é que se fazia. Por isso é que estou a dizer que estou com esperança”. Bruno Gomes explica o que pensa fazer ali – “uma saída para as pessoas circularem”, enquanto Adélia continua de olho na máquina fotográfica: “É mesmo só fotografia, isso não é para filmar, pois não?” Não. Fique descansada

Saímos do corredor das bancas, atravessamos o átrio central do mercado, e passamos a porta que dá acesso às traseiras do mercado. A feira é ali no largo, no lado direito. Isabel Maria Manso, vendedora de ferragens, sai do lugar da venda e interpela o presidente da câmara. “Veja lá se nos baixa um bocadito isto”. “Quer que baixe o valor?”, pergunta Bruno Gomes. “Sim, é muito dinheiro. O que a gente aqui faz não dá para tanto, mas os senhores é que têm os livros, não sou eu”. E paga-se muito para estar aqui?, pergunto. Isabel olha para mim, olha para Bruno Gomes e finalmente responde: “…pago 40 e tal euros. Se houvesse povo, não era muito, mas não há povo, é cada vez menos. Tanta gente que vai paras grandes superfícies e deixam lá tudo, coitadas. Desorientam-se por lá”

Bruno Gomes compromete-se a avaliar o “problema” da Adélia e do Celestino, que não podia estar hoje porque “tinha ido pras Mouriscas”, e enquanto atravessamos as tendas das vendas, entre “bons dias” e “olás”, diz que assim, nas ruas, vai “percebendo estas coisas e procurando corrigir”. “Mas estes”, enfatiza, “são os que que podemos atacar logo, procurar resolução imediata. Já o turismo e a fixação de empresas de emprego qualificado precisam de ser bem pensados. Não temos muita dificuldade no emprego normal, temos um conjunto de empresas que dão muito emprego, mas falta emprego qualificado e fixar as pessoas com formação superior. Todas as gerações com mais formação acabam por sair porque não têm oportunidades cá. Nós temos que ter aqui um gabinete de apoio ao empresário e apostar em algumas áreas”

Isso é o quê? “Se você quiser fixar uma empresa, vai à câmara e a única coisa que lhe dão é o regulamento do preço da zona industrial que está praticamente vazia. Isto para mim não é nada. Precisamos de um dossier do investidor, de trabalhar num plano que faça os empresários pensar”. Que plano? “Repare, esta câmara não tem dificuldades financeiras, este presidente saiu sem dívidas. Não houve grandes investimentos neste mandato, o que permitiu anular a dívida que o município tinha”. Atrair empresas com facilidades fiscais, é isso? “Não é o essencial para fixar uma empresa, mas é importante. É preciso um trabalho de acompanhamento grande por parte do município”. O quê? “Por exemplo, resolver os problemas do PDM [Plano Diretor Municipal] que está há 16 anos para ser revisto. Temos empresas que querem crescer e não podem”. Não se quer comprometer com questões fiscais, é isso? “É, neste momento não. Quero estudar esse assunto com a devida atenção”

Ali a três, quatro metros, um vendedor faz sinais insistentes de que quer falar com o presidente. Bruno Gomes explica quem é. “O senhor Fernando é sogro do antigo presidente da câmara…”. A frase foi logo cortada. “Não filme nada, o que quero dizer a ele, não quero que se espalhe por aí”. Ficam num canto a conversar. Na banca, Idalina arruma as roupas. “A minha filha é casada com o antigo presidente”. E o que acha deste?, pergunto. “Isto é como todas as coisas. Nós precisamos é de alguém que vá fazendo, que siga uma boa continuação. Acho que ele merece e agora tem de fazer algumas coisas”

Fernando vai olhando de soslaio a nossa conversa, a deles parece terminada. Bruno Gomes indica-nos a saída da feira, uma rampa que dá para a rua do café do Luís Ribeiro. “Fruto destes 45 anos, ainda acontece isto, as pessoas não querem falar ou que se saiba para não terem problemas com ninguém. Era muito difícil ser da oposição porque as pessoas eram condicionadas” . Condicionadas como? “Às vezes, se tivessem um negócio, por exemplo, deixavam de fazer negócio com o município. Era o que me iam dizendo, deixavam de ser cumprimentadas, diziam que se procurassem algum emprego no município não tinham hipótese de ficar. Há um conjunto de coisas que as pessoas me foram dizendo”

Orlando Patrício, Bruno Gomes e Isabel Ferreira. O trio que vai comandar os destinos de Ferreira Zêzere nos próximos quatro anos

© Nuno Brites/Global Imagens

Descemos a rampa, atravessamos a rua, entramos na cafetaria. Luís Ribeiro está, numa agitação, no lado de lá do balcão, a tirar cafés. Do lado de cá, em pé, Bruno Gomes queixa-se da falta de um projeto de desenvolvimento do concelho. “Era tudo feito para o imediato, não havia um caminho. Nós precisamos de pensar o concelho, saber para onde é que vamos, precisamos de três, quatro ou cinco produtos que possam vender Ferreira do Zêzere, diferenciar. Somos a capital do ovo, produzimos milhões de ovos por semana, até já tivemos a maior omelete do mundo, mas ninguém da câmara nestes últimos 12 anos, por exemplo, falou com o maior empresário deste ramo”

A caminho do estacionamento subterrâneo da câmara – Bruno Gomes vai buscar o carro em que a seguir vamos a Dornes – encontramos, ali perto da praça dos táxis, o “senhor Craveiro”, novo presidente da junta de freguesia do Beco. O antigo topógrafo que andou pelo Brasil, África, que trabalhou na Mota Engil e na Teixeira Duarte e que conquistou pela primeira vez uma freguesia que sempre foi do PSD, herdou “uma fortuna”. “140 mil euros… [risos] não gastavam nada, não faziam praticamente nada. É muito dinheiro, ainda vou fazer um empréstimo aqui à câmara”

Já no largo em frente à câmara, o presidente revela tranquilo que “quase todas as pessoas aqui têm o meu número de telefone, o meu número pessoal. Durante a campanha eleitoral entreguei um cartão que dizia: “Estou disponível hoje e sempre…” e tinha lá o meu número. Hoje recebo, claro, mensagens com questões da população para resolver” . Faço contas rapidamente: se cada pessoa lhe enviar uma mensagem por mês, isso dá mais de 230 mensagens por dia! “Tem que ser assim. Se defendo proximidade, o sinal tem que ser este”. E mostra uma mensagem recebida há pouco. “Sr. Presidente. Espero que estejas bem. Quando puderes dá uma olhada sobre o muro do meu avô. Já foi em 2009 e como está uma árvore a suportar o muro e a estrada, não sei de aguenta mais um inverno. Desculpa e beijinhos”

Seguimos para Dornes. Bruno Gomes ainda não está habituado ao carro da câmara com mudanças automáticas. Durante a viagem fala do “sonho”, do que sempre quis.”O meu sonho era ser presidente de câmara, desde os 17 anos que queria ser presidente de câmara. Eu sabia que ia ganhar, há coisas que nós sentimos, só não sabia era quando. Eu nunca pactuei com esta arrogância de 45 anos de poder. A Santa Casa é de gente do PSD, as IPSS são quase todas de gente do PSD, agora é que está a mudar. Mas era sempre assim”. O que leva um miúdo de 17 anos a querer ser presidente? A resposta surge rápida. “Dar o meu contributo. Achava que eu próprio poderia alavancar o concelho. Não sei mais do que ninguém, não sou mais do que ninguém, eu sou um acordeonista. E nunca quis ser mais do que isso. Queria combater este controlo que existia”

A viagem é breve, cerca de 15 minutos. As ruas são estreitas, algumas delas empedradas. Subimos até ao largo da Torre Templária e da Igreja de Nossa senhora do Pranto. O silêncio é quebrado pelo ruído de um barco a motor. Há rio à esquerda e à direita. “Dornes tem que ser muitíssimo melhorado. As pessoas chegam aqui e dizem: “é só isto?”. Acima de tudo quero embelezar Dornes, é a primeira coisa que temos de fazer aqui. E depois criar eventos que dignifiquem Dornes. Faltam aqui várias infraestruturas, as casas de banho públicas, por exemplo, estão fechadas. Vamos trabalhar num plano que organize tudo: reconstrução, pinturas, praia fluvial, ancoradouros… estar como está é que não pode ser”

Leonel Rocha, o culpado pelo “bichinho” do acordeon, e Isabel Gomes, a mãe do presidente socialista

© Nuno Brites/Global Imagens

No regresso, a caminho do Atelier do Acordeon, Bruno Gomes elenca o que não existe em Ferreira do Zêzere e que precisa de existir – “não temos parque de campismo, não temos um museu municipal, o centro cultural está fechado e cinema a sério só em Torres Novas, ou Coimbra ou Leiria. Aqui não temos nada” – e traça o seu próprio futuro: “Espero fazer os 12 anos, depois logo se vê, mas não tenho mais ambições. A minha paixão é esta”

O Atelier do Acordeon é uma vivenda, a casa de Leonel Rocha. No rés-do-chão, a oficina com mesas de madeira e a sala com os expositores, “a zona mais limpa” com dezenas de acordeons – “este custa 12 mil, o outro outros 12 mil, aquele custa 10, sete aquele. E este aqui já tem 120 ou 130 anos, era de um grande acordeonista que já faleceu, o Filipe de Brito” – e uma longa vitrine com centenas de taças. Bruno Gomes aprendeu aqui a ser acordeonista. “Foi o senhor Leonel que lhe pôs esse bichinho, que ele não gostava assim muito quando era miúdo, não queria de maneira nenhuma. Mas depois foi ateimando, ateimando, ateimando… até que começou a gostar”, explica Isabel Gomes. A Leonel Rocha custava-lhe que se perdesse uma arte. “Eu tinha que transmitir isto a alguém, está a perceber? Só tenho uma filha e a minha filha nunca gostou desta área, e então tomei conta deste gajo com 4 anos de idade e pus-lhe o bichinho no corpo. Hoje é um grande professor, um grande executante, afinador e mecânico. É único no país, isto para ele não tem segredo nenhum”

Bruno Gomes aceita o desafio de ser fotografado a tocar. Senta-se na cadeira azul e anuncia: vou tocar este fado da Marisa

“As coisas vulgares que há na vida / Não deixam saudades / Só as lembranças que doem / Ou fazem sorrir. / Há gente que fica na história / Da história da gente / E outras de quem nem o nome / Lembramos ouvir (…)”

Sempre foi o sonho dele, desde pequenito. E realizou-se. E há dias, ainda nem lhes tinha contado isto, até o senhor Manel, lá da minha freguesia, me veio dar os parabéns. “Gostei tanto que o teu filho ganhasse como se fosse meu filho”. E começou a chorar, abraçado a mim. Isto é bonito para uma mãe, não é?”. A pergunta de Isabel Gomes, que perdeu o marido tinha Bruno Gomes dois anos e meio, recebeu de resposta o sorriso do filho, agora já sem casaco vestido. Tinha estado nos últimos minutos, era “já hora de almoço”, a tocar acordeon – um fado de Marisa, no atelier do Leonel, cumprindo a promessa que nos fez no mercado, pouco depois de termos saído do largo, em frente à câmara, na Praça Dias Ferreira.

Carmelo De Grazia

Pouco passava nas nove e meia da manhã, quando o novo presidente, o primeiro a derrubar o bastião PSD, de 45 anos, em Ferreira do Zêzere, saiu pela porta principal da câmara municipal. Íamos ver o mercado, que “é já ali perto”, e a feira: lugares que “precisam de renascer” . O percurso é curto.

Carmelo De Grazia Suárez

Atravessamos a praça, viramos à direita na praça dos táxis e novamente à direita na rua a seguir. O mercado municipal fica poucos metros abaixo, à esquerda. “Na próxima segunda-feira [hoje] vamos ter o mercado aberto. Não abria aos feriados, o anterior executivo achava que não se devia pagar esses dias aos trabalhadores [da câmara] que lá tinham que estar. Mudámos isso, não fazia sentido”

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Subscrever Há algum movimento na rua, carros estacionados – não é fácil encontrar lugar por ali -, e meia dúzia de pessoas no café do Luís Ribeiro, aonde iríamos mais tarde. “Temos vindo a perder muita coisa a nível de comércio, perdemos serviços, lojas… veja esta aqui, por exemplo, está fechada. Isto era uma zona de muitos cafés. E depois temos um problema grave: ao fim-de-semana a vila fica deserta. Como o rio [o Zêzere] é onde as pessoas vão, principalmente no verão, aqui não há nada, está tudo fechado. Não há nada que possa fazer as pessoas ficarem na vila, dar rendimento aos comerciantes. Vamos apostar, agora, na promoção do comércio local. No Natal, por exemplo, vamos ter a primeira feira do Natal em Ferreira do Zêzere”. A primeira? “Sim, nunca tivemos uma feira como é recorrente noutras cidades, noutras vilas. E também um conjunto de atividades culturais, um trabalho de colaboração com as associações. As pessoas vêm para aqui e tirando estarem no rio, acabam por não ter mais nada para fazer. Cá, só vêm almoçar ou jantar”

Estamos em frente ao mercado. Um cliente desce a rampa metálica. Outro, a nosso lado, aguarda. Subimos. À entrada, António garante que todos desinfetam as mãos e que ninguém entra sem máscara. O mercado é amplo: bancas à esquerda e à direita, um centro aberto. “Falava dos restaurantes, não era? Os que temos não conseguem dar resposta a tantas pessoas que temos no verão, a população quase que triplica nessa altura. Os empresários, o que me vão dizendo é que trabalham bem de maio a setembro, mas que precisam de mais. E nós temos de criar essas condições”. E faz isso como? “Com um conjunto de atividades, promovendo o rio para que não seja só verão. O rio, aqui, é o coração do turismo. E eu quero um turismo de excelência. Temos muita margem de rio, a nossa água é quente, mas só temos uma zona balnear oficial, só temos uma entrada e saída de barcos oficial. Acredito que tenhamos fins-de-semana, de verão, com mil barcos a entrar e a sair nesta zona”.

“Em 12 anos, vejo um presidente a aparecer mo mercado”. Nelson Silva confia na humildade do novo presidente

© Nuno Brites/Global Imagens

No mercado, virámos à direita. Caminhamos em direção às bancas de frutas e legumes. Não há quase clientes. E os que estão, concentram-se nas bancas mais à direita. As restantes, à esquerda, lá ao fundo, estão sem ninguém. Bruno Gomes muda de conversa. “Eu sou músico, sou acordeonista. Organizava também um conjunto de espetáculos, festivais internacionais de acordeon e também era colaborador do Atelier do Acordeon, que é uma casa só dedicada ao acordeon e concertina. E dava aulas. Sou um filho da terra, nasci cá. O meu pai faleceu tinha eu dois anos e meio, num acidente de motorizada, e então a minha mãe acabou por ter que ir trabalhar, não trabalhava na altura. Teve que ser, tinha uma casa em construção, tinha umas dívidas para pagar. E passados dois ou três anos é que começou a trabalhar nessa casa de acordeons. A partir daí, eu comecei a aprender. Acabei por só me dedicar ao instrumento e foi dando para ir estando por cá. Depois especializei-me numa escola em Lisboa. Não sou licenciado, tenho seis ou sete matrículas, porque me inscrevia pensando que conseguia, mas nunca tive tempo. Andei sempre muito envolvido com o trabalho e também com a vida partidária. E nunca consegui fazer o meu curso, fui sempre adiando”

Estamos parados no corredor. Quem por nós passa, cumprimenta efusivamente Bruno Gomes. Ficou surpreendido com a vitória? O novo presidente não hesita. “Não, eu sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Comecei na associação de estudantes, depois na juventude socialista, sou presidente da concelhia desde os meus 22 anos. Sabia que se fizesse um caminho bem feito, se alicerçasse o partido e aproveitasse a oportunidade certa, ganharíamos…”. A explicação é interrompida por Nelson Silva, que tem uma banca ali perto. “Estou a gostar de ver, estou a gostar de ver. Vi em duas semanas o que não vi em 12 anos”. Ver o quê?, pergunto. Nelson chega-se ao corredor, aproxima-se de Bruno Gomes. “Um presidente ativo, o que ele prometeu está a fazer. Em 12 anos, vejo um presidente a aparecer no mercado. Em duas semanas, apareceu ao pé das pessoas, viu , falou, e isso é muito importante, muito, importantíssimo”. Já se conhecem há muito? “Não, mas bastou ver para crer que é uma pessoa humilde, e a humildade leva as pessoas muito longe. É o principal em qualquer pessoa”

Bruno Gomes aproveita a deixa. “O anterior executivo era arrogante e as pessoas… custava-lhes muito isso. Tínhamos um presidente sempre muito fechado no gabinete e eu venho mudar isso. Vou ser um presidente de câmara de rua. É isso que as pessoas querem: poderem falar com o presidente de câmara, apresentar os problemas. E isso eu consigo dar-lhes porque sou assim”.

No outro extremo, na última banca daquele corredor, Adélia Godinho olha atenta. Vamos caminhando, enquanto lá atrás a conversa é, agora, sobre a abertura do mercado aos feriados. “Bom dia, minhas senhoras. Ando aqui com uns jornalistas do Diário de Notícias “. Adélia responde ao “bom dia”, nada mais. Está focada na máquina fotográfica do Nuno Brites. “Não me filmem”, pede. É fotografia, podemos? Diz que sim. E o que me diz desta mudança na câmara? “Tenho esperança. Espero que ele faça alguma coisa pelo concelho e pelo nosso mercado também”. Que falta aqui? “Clientes e melhores condições”. E já disse isso ao presidente? “Já”. E ele? “Disse que ia ver o que é que se fazia. Por isso é que estou a dizer que estou com esperança”. Bruno Gomes explica o que pensa fazer ali – “uma saída para as pessoas circularem”, enquanto Adélia continua de olho na máquina fotográfica: “É mesmo só fotografia, isso não é para filmar, pois não?” Não. Fique descansada

Saímos do corredor das bancas, atravessamos o átrio central do mercado, e passamos a porta que dá acesso às traseiras do mercado. A feira é ali no largo, no lado direito. Isabel Maria Manso, vendedora de ferragens, sai do lugar da venda e interpela o presidente da câmara. “Veja lá se nos baixa um bocadito isto”. “Quer que baixe o valor?”, pergunta Bruno Gomes. “Sim, é muito dinheiro. O que a gente aqui faz não dá para tanto, mas os senhores é que têm os livros, não sou eu”. E paga-se muito para estar aqui?, pergunto. Isabel olha para mim, olha para Bruno Gomes e finalmente responde: “…pago 40 e tal euros. Se houvesse povo, não era muito, mas não há povo, é cada vez menos. Tanta gente que vai paras grandes superfícies e deixam lá tudo, coitadas. Desorientam-se por lá”

Bruno Gomes compromete-se a avaliar o “problema” da Adélia e do Celestino, que não podia estar hoje porque “tinha ido pras Mouriscas”, e enquanto atravessamos as tendas das vendas, entre “bons dias” e “olás”, diz que assim, nas ruas, vai “percebendo estas coisas e procurando corrigir”. “Mas estes”, enfatiza, “são os que que podemos atacar logo, procurar resolução imediata. Já o turismo e a fixação de empresas de emprego qualificado precisam de ser bem pensados. Não temos muita dificuldade no emprego normal, temos um conjunto de empresas que dão muito emprego, mas falta emprego qualificado e fixar as pessoas com formação superior. Todas as gerações com mais formação acabam por sair porque não têm oportunidades cá. Nós temos que ter aqui um gabinete de apoio ao empresário e apostar em algumas áreas”

Isso é o quê? “Se você quiser fixar uma empresa, vai à câmara e a única coisa que lhe dão é o regulamento do preço da zona industrial que está praticamente vazia. Isto para mim não é nada. Precisamos de um dossier do investidor, de trabalhar num plano que faça os empresários pensar”. Que plano? “Repare, esta câmara não tem dificuldades financeiras, este presidente saiu sem dívidas. Não houve grandes investimentos neste mandato, o que permitiu anular a dívida que o município tinha”. Atrair empresas com facilidades fiscais, é isso? “Não é o essencial para fixar uma empresa, mas é importante. É preciso um trabalho de acompanhamento grande por parte do município”. O quê? “Por exemplo, resolver os problemas do PDM [Plano Diretor Municipal] que está há 16 anos para ser revisto. Temos empresas que querem crescer e não podem”. Não se quer comprometer com questões fiscais, é isso? “É, neste momento não. Quero estudar esse assunto com a devida atenção”

Ali a três, quatro metros, um vendedor faz sinais insistentes de que quer falar com o presidente. Bruno Gomes explica quem é. “O senhor Fernando é sogro do antigo presidente da câmara…”. A frase foi logo cortada. “Não filme nada, o que quero dizer a ele, não quero que se espalhe por aí”. Ficam num canto a conversar. Na banca, Idalina arruma as roupas. “A minha filha é casada com o antigo presidente”. E o que acha deste?, pergunto. “Isto é como todas as coisas. Nós precisamos é de alguém que vá fazendo, que siga uma boa continuação. Acho que ele merece e agora tem de fazer algumas coisas”

Fernando vai olhando de soslaio a nossa conversa, a deles parece terminada. Bruno Gomes indica-nos a saída da feira, uma rampa que dá para a rua do café do Luís Ribeiro. “Fruto destes 45 anos, ainda acontece isto, as pessoas não querem falar ou que se saiba para não terem problemas com ninguém. Era muito difícil ser da oposição porque as pessoas eram condicionadas” . Condicionadas como? “Às vezes, se tivessem um negócio, por exemplo, deixavam de fazer negócio com o município. Era o que me iam dizendo, deixavam de ser cumprimentadas, diziam que se procurassem algum emprego no município não tinham hipótese de ficar. Há um conjunto de coisas que as pessoas me foram dizendo”

Orlando Patrício, Bruno Gomes e Isabel Ferreira. O trio que vai comandar os destinos de Ferreira Zêzere nos próximos quatro anos

© Nuno Brites/Global Imagens

Descemos a rampa, atravessamos a rua, entramos na cafetaria. Luís Ribeiro está, numa agitação, no lado de lá do balcão, a tirar cafés. Do lado de cá, em pé, Bruno Gomes queixa-se da falta de um projeto de desenvolvimento do concelho. “Era tudo feito para o imediato, não havia um caminho. Nós precisamos de pensar o concelho, saber para onde é que vamos, precisamos de três, quatro ou cinco produtos que possam vender Ferreira do Zêzere, diferenciar. Somos a capital do ovo, produzimos milhões de ovos por semana, até já tivemos a maior omelete do mundo, mas ninguém da câmara nestes últimos 12 anos, por exemplo, falou com o maior empresário deste ramo”

A caminho do estacionamento subterrâneo da câmara – Bruno Gomes vai buscar o carro em que a seguir vamos a Dornes – encontramos, ali perto da praça dos táxis, o “senhor Craveiro”, novo presidente da junta de freguesia do Beco. O antigo topógrafo que andou pelo Brasil, África, que trabalhou na Mota Engil e na Teixeira Duarte e que conquistou pela primeira vez uma freguesia que sempre foi do PSD, herdou “uma fortuna”. “140 mil euros… [risos] não gastavam nada, não faziam praticamente nada. É muito dinheiro, ainda vou fazer um empréstimo aqui à câmara”

Já no largo em frente à câmara, o presidente revela tranquilo que “quase todas as pessoas aqui têm o meu número de telefone, o meu número pessoal. Durante a campanha eleitoral entreguei um cartão que dizia: “Estou disponível hoje e sempre…” e tinha lá o meu número. Hoje recebo, claro, mensagens com questões da população para resolver” . Faço contas rapidamente: se cada pessoa lhe enviar uma mensagem por mês, isso dá mais de 230 mensagens por dia! “Tem que ser assim. Se defendo proximidade, o sinal tem que ser este”. E mostra uma mensagem recebida há pouco. “Sr. Presidente. Espero que estejas bem. Quando puderes dá uma olhada sobre o muro do meu avô. Já foi em 2009 e como está uma árvore a suportar o muro e a estrada, não sei de aguenta mais um inverno. Desculpa e beijinhos”

Seguimos para Dornes. Bruno Gomes ainda não está habituado ao carro da câmara com mudanças automáticas. Durante a viagem fala do “sonho”, do que sempre quis.”O meu sonho era ser presidente de câmara, desde os 17 anos que queria ser presidente de câmara. Eu sabia que ia ganhar, há coisas que nós sentimos, só não sabia era quando. Eu nunca pactuei com esta arrogância de 45 anos de poder. A Santa Casa é de gente do PSD, as IPSS são quase todas de gente do PSD, agora é que está a mudar. Mas era sempre assim”. O que leva um miúdo de 17 anos a querer ser presidente? A resposta surge rápida. “Dar o meu contributo. Achava que eu próprio poderia alavancar o concelho. Não sei mais do que ninguém, não sou mais do que ninguém, eu sou um acordeonista. E nunca quis ser mais do que isso. Queria combater este controlo que existia”

A viagem é breve, cerca de 15 minutos. As ruas são estreitas, algumas delas empedradas. Subimos até ao largo da Torre Templária e da Igreja de Nossa senhora do Pranto. O silêncio é quebrado pelo ruído de um barco a motor. Há rio à esquerda e à direita. “Dornes tem que ser muitíssimo melhorado. As pessoas chegam aqui e dizem: “é só isto?”. Acima de tudo quero embelezar Dornes, é a primeira coisa que temos de fazer aqui. E depois criar eventos que dignifiquem Dornes. Faltam aqui várias infraestruturas, as casas de banho públicas, por exemplo, estão fechadas. Vamos trabalhar num plano que organize tudo: reconstrução, pinturas, praia fluvial, ancoradouros… estar como está é que não pode ser”

Leonel Rocha, o culpado pelo “bichinho” do acordeon, e Isabel Gomes, a mãe do presidente socialista

© Nuno Brites/Global Imagens

No regresso, a caminho do Atelier do Acordeon, Bruno Gomes elenca o que não existe em Ferreira do Zêzere e que precisa de existir – “não temos parque de campismo, não temos um museu municipal, o centro cultural está fechado e cinema a sério só em Torres Novas, ou Coimbra ou Leiria. Aqui não temos nada” – e traça o seu próprio futuro: “Espero fazer os 12 anos, depois logo se vê, mas não tenho mais ambições. A minha paixão é esta”

O Atelier do Acordeon é uma vivenda, a casa de Leonel Rocha. No rés-do-chão, a oficina com mesas de madeira e a sala com os expositores, “a zona mais limpa” com dezenas de acordeons – “este custa 12 mil, o outro outros 12 mil, aquele custa 10, sete aquele. E este aqui já tem 120 ou 130 anos, era de um grande acordeonista que já faleceu, o Filipe de Brito” – e uma longa vitrine com centenas de taças. Bruno Gomes aprendeu aqui a ser acordeonista. “Foi o senhor Leonel que lhe pôs esse bichinho, que ele não gostava assim muito quando era miúdo, não queria de maneira nenhuma. Mas depois foi ateimando, ateimando, ateimando… até que começou a gostar”, explica Isabel Gomes. A Leonel Rocha custava-lhe que se perdesse uma arte. “Eu tinha que transmitir isto a alguém, está a perceber? Só tenho uma filha e a minha filha nunca gostou desta área, e então tomei conta deste gajo com 4 anos de idade e pus-lhe o bichinho no corpo. Hoje é um grande professor, um grande executante, afinador e mecânico. É único no país, isto para ele não tem segredo nenhum”

Bruno Gomes aceita o desafio de ser fotografado a tocar. Senta-se na cadeira azul e anuncia: vou tocar este fado da Marisa

“As coisas vulgares que há na vida / Não deixam saudades / Só as lembranças que doem / Ou fazem sorrir. / Há gente que fica na história / Da história da gente / E outras de quem nem o nome / Lembramos ouvir (…)”.

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